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O Dia Nacional da Consciência Negra é celebrado, no Brasil, neste 20 de novembro. Convidamos a primeira repórter negra de projeção na TV, Glória Maria – a atemporal, segura, presente e eterna jornalista – para falar do racismo: “Já vivenciei todas as caras do racismo na minha vida”, disse. Glória já teve passagens cruéis, como em 1976, quando processou um hotel (fazendo uso da Lei Afonso Arinos) depois de ter sido impedida de entrar pela porta da frente e orientada a usar o elevador dos fundos.

Ou outras surpreendentes: “Quando estive no interior da Sérvia e fui conversar com uma velhinha, descobri que ela nunca tinha visto um preto na vida; ela não sabia que existia gente diferente dela. Sua alegria quando me descobriu foi inacreditável, percebendo a diferença e que o mundo poderia ser muito mais bonito. Ela não queria mais me deixar ir embora”, diz. Glória comenta, ainda, casos recentes, como o do colega William Waack e da ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois. (Foto: Luiz Roberto Kauffmann)

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 A escravidão ainda existe? 

A escravidão continua existindo, só mudou de cara. Não somos mais presos por correntes ou grilhões, sim, mas a nossa escravidão é tão cruel que somos vistos como inferiores, subalternos, sub-humanos e, pior ainda, sem poder de decisão. O poder branco é branco, uma voz negra não tem importância. Continuamos vivendo da  maneira que a sociedade branca permite. Pra escapar, a gente precisa entrar numa guerra por liberdade; pra existir, precisamos mostrar que fazemos parte deste mundo, o que é um absurdo. Dos tempos de escravidão oficial até hoje, praticamente nada mudou. Precisamos de cotas pra provar que somos inteligentes, que temos capacidade de estudar e aprender. Casamentos inter-raciais são cada vez mais raros. 

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Você acha que a educação pode melhorar o racismo? 

Precisamos ter a consciência de que somos todos iguais. Mesmo as pessoas brancas, entre si, se sentem umas melhores que as outras; com relação aos negros, esse sentimento é elevado à potencialidade. Se assim fosse, não existiria racista educado, ou seja, independe da educação: conheço pessoas cultas, educadas, mas racistas. O que precisa haver é a consciência da igualdade, de que o outro é igual a você, para que não exista o sentimento de racismo, que continua explícito, claro e transparente – só não existe para quem não é vítima desse sentimento. 

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Você viaja o mundo inteiro. O que apontaria de diferenças entre o comportamento dos brasileiros e o de outros povos? 

O racismo no Brasil é muito mais grave, muito mais cruel, porque parte da desinformação e do egoísmo. Em outros países, existe, mas, quando acontece, é direto – temos como nos defender; você reconhece o inimigo e fica mais fácil lidar com ele. No nosso país, as pessoas, além de racistas, são covardes. A grande maioria prefere dizer que o racismo não existe, e, muitas vezes, fala que ele tem um motorista preto, uma babá preta, uma empregada preta e que essas pessoas são aceitas em suas casas – sei, como inferiores! 

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 O que esse feriado de Dia da Consciência negra pode trazer? 

Desde o momento em que mexe na ferida, abre um espaço maior para a discussão – esse é um caminho. O grande problema de nós, negros, é a invisibilidade. Você não precisa se preocupar com aquilo que não vê ou acredita que não exista. Um dia como este, mesmo para as pessoas que preferem jogar o assunto pra baixo do tapete, ainda que por alguns segundos, ela tem de pensar, e mesmo que, a longuíssimo prazo, pode modificar o problema racial. 

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Você já percebeu qualquer gesto de discriminação com as suas filhas?

Claro que já. Ensino a elas que existe gente de todas as cores e que todo mundo é igual, mas, ao mesmo tempo, tento prepará-las para a dor. Elas estudam em escolas de elite; na sala, são  praticamente as únicas negras. A Laura e a Maria (de 8 e 9 anos) já vieram questionar por que elas não têm o cabelo loiro, liso e por que a pele é diferente. Eu explico que ninguém é igual. A única esperança que tenho, e que me deixa um pouco otimista, é que, pelo menos, minhas filhas convivem com crianças de alma aberta e pura. Acredito mesmo que elas possam mudar a situação. 

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Há pouco tempo, você comentou que, no Brasil, não se fabricam bonecas negras. Isso mudou?

Existem pouquíssimas. Aqui não temos referências negras positivas pra criar e orientar nossos filhos. Se você vai a uma peça, os heróis são brancos, as princesas são brancas, os vitoriosos são brancos. Qual o papel que sobra para o negro, na ciência, na literatura, no teatro? Os ETs? Quando a gente consegue o reconhecimento, na visão do mérito, não é um mérito, é uma concessão. 

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 Alguma lembrança vivida por você retrata isso? 

Quando comecei a apresentar o Fantástico, em 1998, muita gente fez movimento, dizendo que foi por pressão do movimento negro, e não pelo meu talento e minha capacidade. Se um branco faz, é porque conquistou; ninguém diz que foi pressão da sociedade branca. A primeira vez que o Eraldo Pereira assumiu a bancada do Jornal Nacional, virou algo extraordinário: “como um negro apresentando o JN?” Significa pro mundo que não era natural, tanto que tinha de se justificar, como se fosse o primeiro homem a chegar à lua. Comigo, às vezes, se passa também de maneira diferente – vão pensar duas vezes, são racistas, ou  seja, burras, mas não são idiotas. É como se eu fosse um troféu: ter a Glória Maria, uma negra famosa, conhecida, como se dissesse “a gente demonstra que não é racista, a Glória tá aqui”; mas vai a Glória Maria pisar na bola, e diriam: “Tá vendo? isso é coisa de crioulo”. Esta semana, saiu uma estatística apontando que 71% das vítimas de homicídios são negras. Levei um susto e pensei: até parece o movimento de extermínio de uma raça. 

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 Normalmente, você não tem namorados negros. Por quê? 

Os homens negros preferem as brancas. O próprio negro se discrimina; para ele acreditar que venceu e tem status, precisa usar os valores brancos, como as suas mulheres, por exemplo. Quanto mais escura a sua pele, mais excluído você é. 

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O que significa a cor da pele? 

Pra mim, a cor da pele nada significa porque eu costumo ver a alma – o que me interessa é o caráter e a capacidade de amar. No mundo em que vivemos, de competição e exclusão, esse tipo de sentimento não significa nada. 

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 E sobre os casos recentes envolvendo o jornalista William Wack e a ministra Luislinda?

A frase não é do William – é do universo. Ter dito uma frase racista não significa que ele especificamente seja racista. Convivi a vida inteira com o William e nunca percebi nele uma demonstração de racismo. Waack  simplesmente teve uma reação inconsciente, que expressa o racismo. Chegou a esse ponto: uma reação inconsciente. Esse tipo de coisa é uma piada como fazem com português. Quanto à ministra Luislinda, ela fez o que todos eles fazem: acumular cargos. Ela não pode? Seria a única? É negra e teve a “ousadia” de conseguir ser ministra. Por que nunca se falou isso dos outros? É o que eu falei no início: “é coisa de preto”. O erro é sempre negro; o acerto é sempre branco. 

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Enviado por: Lu Lacerda

11 comentários para "Dez perguntas para Glória Maria (sobre racismo)"

  1. 20/11/2017 - 14:25 Enviado por: Lelis Sormani

    Glória Maria divou. Com o sempre mostrou aí independente da cor somos todos iguais, E temos todos os direitos e claro todos as respossabilidades de um Ser que convive em sociedade. 365 dias de respeito.

  2. 20/11/2017 - 20:45 Enviado por: Laura M. Mattos

    Gosto muito da inteligência dessa mulher…ela sabe ser perfeitamente compreensível em suas palavras…Há uma força imbatível no que ela fala, além de uma coerência construtiva.

  3. 21/11/2017 - 01:56 Enviado por: João Carlos Rosseto

    Venho de uma família misturada de um negro que casou com uma italiana por parte de pai e de um italiano que casou com uma índia por parte de mãe.
    Quando nos reunimos, e, diga-se de passagem, amamos fazer isto, tem gente de toda cor, preto, branco, loiro, mulato, ruivo, branco com cabelo crespo, preto com cabelo liso e por aí vai. Ah e eu que sou pardo.
    Eu amo ver essa mistura, nela eu vejo o poder de DEUS.
    Já namorei mulher negra, morena, branca, ruiva, loira. Eu só me lembro de racismo quando alguém fala nele, porque eu não consigo distinguir as pessoas pela cor da pele. O que me força a distinguir as pessoas é realmente o que a Glória Maria falou, o caráter, a capacidade ser amigo, de fazer o bem.
    O que está faltando no mundo é o conhecimento de DEUS, que nos ensina a fazer o bem, sem olhar a quem.

  4. 21/11/2017 - 10:22 Enviado por: Maiko Silva

    Racismo no Brasil é muito presente e o pior de forma velada!
    Eu sou branco, classe média, estudante universitario, moro em um bairro muito bom de Porto Alegre.
    Nunca havia sido parado em uma barreira policial, nunca havia sido revistado, nem nada disso!
    Isto mudou já faz quase 02 anos! Hoje sou revistado sempre, parado em blitz, perseguido em supermercados e shoppings por seguranças!
    O que mudou? Meu namorado é negro, e somente este fato já muda todo o tratamento recebido!
    A cor da pele dele chega antes! Não sabem nada sobre a vida dele! Somente ser negro já é o suficiente para que ele seja suspeito!
    Isto é assim para nós que somos classe média e moramos em um bairro “bom” imagina o que sofre o negro que mora em comunidades? Ou áreas menos privilegiadas?

  5. 21/11/2017 - 11:21 Enviado por: Sônia

    Glória Maria é tudo de bom que temos referência. É a Glória! !! Entrevista linda e inteligente como ela é. Gratidão!

  6. 21/11/2017 - 11:45 Enviado por: Rosana

    Por causa de mulheres como vc,forte, guerreira, que soube mostrar todo seu talento e se tornar uma das profissionais mais respeitadas no Brasil e fora dele, que digo nenhuma mulher de fibra precisa de muletas. Vc é um exemplo para todos.

  7. 21/11/2017 - 11:49 Enviado por: Suely Teixeira

    Glória Maria, você brilhou, é sensata e inteligente e não foi a cor da pele que te fez assim, mas sim a sua capacidade sempre tão grande de analisar as questões relevantes da vida. Parabéns.

  8. 21/11/2017 - 13:04 Enviado por: Gentil Lino dos Santos

    Li atentamente as respostas da Glória Maria, da qual sou admirador pelas suas qualidades de jornalista.
    De tudo que li, apenas uma pequena ressalva, que aliás ela própria faz, em uma ligeira contradição na resposta 2 quando diz que o que é preciso é consciência da igualdade, e na 5ª quando vai explicar para as filhas porque elas não temcabelos loiros, lisos e a cor da pele é diferente. E diz ela: eu explico, por que não somos iguais.
    A respeito da ligeira contradição argumento:
    Esta história de que todos somos iguais, vem da lei, ou seja somos todos iguais perante a lei. Mas mesmo perante lei não somos todos iguais. As diferenças são determinadas, pelo dinheiro que a pessoa tem, se ela pertence a classe política ou não, e muitas outras particularidades. Esquecendo esta falsa igualdade perante a lei, vejamos fora deste contexto. As pessoas em qualquer contexto são diferentes. O ser humano se divide em dois: o indivíduo e a pessoa humana. O indivíduo é a pessoa física. Neste contexto então, as diferenças são enormes. Tudo é diferente, um simples detalhe, as impressões digitais: não existem duas iguais. Considerando a pessoa humana, também somos todos diferentes. A pessoa humana pode ser resumida na personalidade do indivíduo. As diferenças são éticas, morais, religiosas, de instrução, etc.Tudo isto depende do que as pessoas recebem em sua formação. Nem mesmo um indivíduo é igual a si mesmo. Hoje somos diferentes do que fomos ontem. Ninguém toma banho do mesmo jeito todo dia. A água é diferente, a pessoa é diferente, e muitas outras coisas são diferentes. As pessoas sempre vão ser diferentes, e é bom que assim seja. Essas diferenças vão ter que ser marcadas sempre, pelo esforço, pela luta, pela ânsia pelo progresso e desenvolvimento pessoal, pelas batalhas que temos que vencer. Não nos esqueçamos que todos nós nascemos após uma batalha. Entre milhões de espermatozóides apenas um fecunda o óvulo que nos dá origem. Começamos a vida competindo,lutando. E olhe que é uma competição ferrenha, um para milhões.O que precisamos entender é que somos todos diferentes, mas que essas diferenças não mereçam tratamentos desiguais, principalmente quando se criam idéias pré concebidas com relação a essas diferenças, sejam elas quais forem.
    Para finalizar, acho necessário identificar a minha cor. Como na fotografia preto e branco quando temos áreas de cor preta e áreas de cor branca, entre as duas existe a cor intermediária, cinza, eu me considero cinza. Quando eu nasci os cartórios registravam como cor da pele, branco ou preto. Ainda não existia o que hoje existe, a classificação de pardos. Poderia ser classificado de pardo, mas não gosto muito desta classificação, por isso prefiro, cinza.

  9. 21/11/2017 - 13:37 Enviado por: Clóvis Henrique

    Tenho profunda admiração pela glória Maria, pela profissional que é, e claro o fato de ser negra (não moreninha), nos deixa muito orgulhosos. Concordo com as respostas dela. Agora lamento que as pessoas estão postando nas redes sociais opiniões diversas porque ela postou uma frase atribuída ao ator negro Morgan Freeman (“… consciência humana), e que no fundo demonstram que não querem enfrentar o problema do racismo, que como bem disse a glória, é cruel, por ser praticado as escondidas. Estão distorcendo. Fruto de uma cultura esfacelada.

  10. 21/11/2017 - 17:59 Enviado por: Elizabeth

    Defender e tentar justificar a atitude nefasta da ministra em questão, me deixou mto decepcionada com vc. Pelo que acompanho de vc pelas Redes, esperava bem mais. Seu argumento é frágil, tendencioso e, para dizer o mínimo, risível. Francamente!!!

  11. 21/11/2017 - 22:17 Enviado por: Margarida Braga

    Trabalho em uma escola na comunidade pobre da baixada fluminense e existe muitos projetos e programas para a diversidade, onde 97% da população é negra. Os próprios alunos não se enxergam negros, foi o que uma professora observou ao fazer dinâmicas na semana da consciência negra… sempre me pergunto, será que nas escolas particulares onde há prevalência de crianças brancas, será que é trabalhado com responsabilidade a diversidade, mostrando como é mostrado na pública essa diversidade? Creio que pode ser um começo para uma integração maior entre brancos e negros onde, necessariamente não é tão trabalhado.


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