03/09/2018 - 19:00

Seis perguntas para Carlos Tufvesson (sobre retirada da candidatura)

Em abril deste ano, o estilista e militante Carlos Tufvesson anunciou sua candidatura a deputado estadual pelo Partido Verde. Há pouco mais de um mês para as eleições, ele retirou a inscrição ao perceber o desencantamento das pessoas com a política nacional. Um dos slogans da campanha do estreante era “O Rio que nós queremos é…”, com propostas como um estado com forte calendário de turismo e eventos, um estado limpo e sustentável e a luta mais recorrente na vida de Carlos – ele comandou a Coordenadoria da Diversidade Sexual, criada no governo de Eduardo Paes – um estado “onde quem não é negro luta contra o racismo, quem não é homem luta contra o machismo, quem não é LGBT luta contra a LGBTfobia e que combata quaisquer formas de opressão”.

1
Por que desistiu da candidatura? Existiu alguma treta, decepção? 

Nenhuma treta. Quando decidi me candidatar, foi para ajudar o Rio e ao futuro governador, neste momento trágico que vivemos, que, a meu ver, passar pela ausência de governança e liderança. Precisamos de pessoas com competência comprovada e que amam nosso Rio como amamos. Mas eu não sou um cara de vivência partidária. O tal fundo eleitoral crido para a campanha só é distribuído pra quem já tem mandato ou é deputado federal. Fiz minha campanha achando que as pessoas equilibrariam essa parte; afinal, tenho um histórico de luta pelo nosso Rio, mas a verdade é que as pessoas estão tão desencantadas com a política que sequer entendem a importância de contribuírem financeiramente com a democracia. E ela tem um custo, mas para melhorar nosso País e estado, temos que ter candidatos independentes, e essa independência nasce na campanha. Na última semana em conversa com o financeiro, vi que teria de me endividar pra continuar a campanha. Não acho justo e seria irresponsável achar que captaria em um mês o que não captei em três.

2
Nesse meio tempo, você investiu em campanhas. Arrependeu-se?  

A cada dia, recebia tantas mensagens de apoio que não tem como me arrepender. Foi lindo e emocionante! Um movimento de amor ao Rio foi criado, e isso não tem volta. Em cada reunião de pessoas que abriram suas casas pra mim, vi a esperança de novo nos olhos e pessoas que viram que é possível acreditar que nosso Rio tem jeito.

3
Você vê um futuro para o Rio? 

Criamos uma campanha de 21 pontos pelo Rio. Um manifesto que guiaria nossas propostas feitas com pensadores e através das opiniões de cidadãos que ouvia em nossas reuniões. Quero levar isso ao próximo governador para que possamos reconstruir o Rio.

4
Quando você diz que desistiu da candidatura, mas não da luta, o que significa? 

Você me conhece e sabe que não desisto de meus ideais. O Rio precisa de nós, ainda mais neste momento tão delicado da nossa historia. Estarei trabalhando pela sua reconstrução, só que não será pelo Legislativo. Em outra frente, mas a luta continua! Merecemos um futuro melhor e poder voltar a viver no Rio!

5
Entre seus projetos, estava o de representar o setor de moda na Assembleia e criar uma união em favor do Rio. Pretende continuar com o ateliê ou fazer algo a mais na moda? 

Continuo atendendo com hora marcada no ateliê e desenhando uma coleção de pret-à-porter para o atacado. No entanto, além disso, quero trabalhar pela economia criativa e pelo turismo, duas vocações naturais do Rio, tão pouco cuidadas, por onde acredito podemos voltar a crescer e gerar empregos – fora a transformação social por essas áreas que estávamos planejando como proposta de mandato. Aguarde!

6
E vai desistir de vez da política? Como sua família, seu marido (o arquiteto André Piva) reagiram?  

Todos estavam muito receosos, pois sabemos como seria difícil, mas me apoiavam – como apoiaram minha retirada da candidatura. É triste, pois muita gente já tinha declarado voto e tenho responsabilidade com essas pessoas. Não é desistência. Minha candidatura tinha como propósito único a luta pelo Rio. Dessa luta jamais desistirei. 


Enviado por: Redação
08/05/2018 - 15:32

“Mais um de nós foi assassinadx!” (com x mesmo, por ser de gênero neutro).

 

Do estilista e ativista Carlos Tufvesson, sobre o assassinato de Matheusa Passareli.


Enviado por: Redação
07/05/2018 - 21:00

Opinião, por Carlos Tufvesson: “Mais um de nós foi assassinadx!”

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“Hoje acordei com uma notícia muito comum na vida de todo ativista de Direitos Civis e Humanos. Infelizmente, uma notícia quase corriqueira: mais um de nós foi assassinadx! (com x mesmo, por ser de gênero neutro).

Matheusa Passareli, conhecida como Theusa, era Ativista LGBT, como eu. Era negra, estudante de Artes da UERJ, primeira de sua família a ingressar em uma universidade. Theusa foi executada e queimada em uma favela carioca. Infelizmente, será mais um número em uma estatística assombrosa.

Em 2017, o Brasil ganhou o triste campeonato de país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Além da violência generalizada, quase banal nas cidades brasileiras, há um outro tipo de crime que assola o Brasil. Os chamados “crimes de ódio” têm índices alarmantes, sem que nenhuma política pública seja adotada para contê-los.

Noventa por cento das travestis e transexuais que se prostituem nas ruas do Rio gostariam de estar inseridas no mercado formal de trabalho. Apesar da qualificação profissional, não conseguem emprego. Por quê? Por puro PRECONCEITO!

Quantos de nós já viu, no seu dia a dia, uma pessoa trans exercendo a arquitetura, engenharia, advocacia, psicologia? Trabalhando numa loja, escritório, num restaurante ou hotel? Fazendo serviço doméstico? Acredito que poucos ou ninguém conheçam um exemplo como esse, pelo simples fato de que as pessoas trans vivem à margem da sociedade.

Quando pensarmos no que podemos fazer para mudar essa realidade, inclusão é a única saída. Não será permitindo o discurso (nazista) do ódio contra minorias, especialmente como projeto eleitoral, que teremos um país mais justo para todos, independentemente da orientação sexual, credo, raça ou cor.”

Carlos Tufvesson é estilista e ativista.


Enviado por: Redação