19/11/2017 - 18:00

Dez perguntas para Glória Maria (sobre racismo)

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O Dia Nacional da Consciência Negra é celebrado, no Brasil, neste 20 de novembro. Convidamos a primeira repórter negra de projeção na TV, Glória Maria – a atemporal, segura, presente e eterna jornalista – para falar do racismo: “Já vivenciei todas as caras do racismo na minha vida”, disse. Glória já teve passagens cruéis, como em 1976, quando processou um hotel (fazendo uso da Lei Afonso Arinos) depois de ter sido impedida de entrar pela porta da frente e orientada a usar o elevador dos fundos.

Ou outras surpreendentes: “Quando estive no interior da Sérvia e fui conversar com uma velhinha, descobri que ela nunca tinha visto um preto na vida; ela não sabia que existia gente diferente dela. Sua alegria quando me descobriu foi inacreditável, percebendo a diferença e que o mundo poderia ser muito mais bonito. Ela não queria mais me deixar ir embora”, diz. Glória comenta, ainda, casos recentes, como o do colega William Waack e da ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois. (Foto: Luiz Roberto Kauffmann)

1
 A escravidão ainda existe? 

A escravidão continua existindo, só mudou de cara. Não somos mais presos por correntes ou grilhões, sim, mas a nossa escravidão é tão cruel que somos vistos como inferiores, subalternos, sub-humanos e, pior ainda, sem poder de decisão. O poder branco é branco, uma voz negra não tem importância. Continuamos vivendo da  maneira que a sociedade branca permite. Pra escapar, a gente precisa entrar numa guerra por liberdade; pra existir, precisamos mostrar que fazemos parte deste mundo, o que é um absurdo. Dos tempos de escravidão oficial até hoje, praticamente nada mudou. Precisamos de cotas pra provar que somos inteligentes, que temos capacidade de estudar e aprender. Casamentos inter-raciais são cada vez mais raros. 

2
Você acha que a educação pode melhorar o racismo? 

Precisamos ter a consciência de que somos todos iguais. Mesmo as pessoas brancas, entre si, se sentem umas melhores que as outras; com relação aos negros, esse sentimento é elevado à potencialidade. Se assim fosse, não existiria racista educado, ou seja, independe da educação: conheço pessoas cultas, educadas, mas racistas. O que precisa haver é a consciência da igualdade, de que o outro é igual a você, para que não exista o sentimento de racismo, que continua explícito, claro e transparente – só não existe para quem não é vítima desse sentimento. 

3
Você viaja o mundo inteiro. O que apontaria de diferenças entre o comportamento dos brasileiros e o de outros povos? 

O racismo no Brasil é muito mais grave, muito mais cruel, porque parte da desinformação e do egoísmo. Em outros países, existe, mas, quando acontece, é direto – temos como nos defender; você reconhece o inimigo e fica mais fácil lidar com ele. No nosso país, as pessoas, além de racistas, são covardes. A grande maioria prefere dizer que o racismo não existe, e, muitas vezes, fala que ele tem um motorista preto, uma babá preta, uma empregada preta e que essas pessoas são aceitas em suas casas – sei, como inferiores! 

4
 O que esse feriado de Dia da Consciência negra pode trazer? 

Desde o momento em que mexe na ferida, abre um espaço maior para a discussão – esse é um caminho. O grande problema de nós, negros, é a invisibilidade. Você não precisa se preocupar com aquilo que não vê ou acredita que não exista. Um dia como este, mesmo para as pessoas que preferem jogar o assunto pra baixo do tapete, ainda que por alguns segundos, ela tem de pensar, e mesmo que, a longuíssimo prazo, pode modificar o problema racial. 

5
Você já percebeu qualquer gesto de discriminação com as suas filhas?

Claro que já. Ensino a elas que existe gente de todas as cores e que todo mundo é igual, mas, ao mesmo tempo, tento prepará-las para a dor. Elas estudam em escolas de elite; na sala, são  praticamente as únicas negras. A Laura e a Maria (de 8 e 9 anos) já vieram questionar por que elas não têm o cabelo loiro, liso e por que a pele é diferente. Eu explico que ninguém é igual. A única esperança que tenho, e que me deixa um pouco otimista, é que, pelo menos, minhas filhas convivem com crianças de alma aberta e pura. Acredito mesmo que elas possam mudar a situação. 

6
Há pouco tempo, você comentou que, no Brasil, não se fabricam bonecas negras. Isso mudou?

Existem pouquíssimas. Aqui não temos referências negras positivas pra criar e orientar nossos filhos. Se você vai a uma peça, os heróis são brancos, as princesas são brancas, os vitoriosos são brancos. Qual o papel que sobra para o negro, na ciência, na literatura, no teatro? Os ETs? Quando a gente consegue o reconhecimento, na visão do mérito, não é um mérito, é uma concessão. 

7
 Alguma lembrança vivida por você retrata isso? 

Quando comecei a apresentar o Fantástico, em 1998, muita gente fez movimento, dizendo que foi por pressão do movimento negro, e não pelo meu talento e minha capacidade. Se um branco faz, é porque conquistou; ninguém diz que foi pressão da sociedade branca. A primeira vez que o Eraldo Pereira assumiu a bancada do Jornal Nacional, virou algo extraordinário: “como um negro apresentando o JN?” Significa pro mundo que não era natural, tanto que tinha de se justificar, como se fosse o primeiro homem a chegar à lua. Comigo, às vezes, se passa também de maneira diferente – vão pensar duas vezes, são racistas, ou  seja, burras, mas não são idiotas. É como se eu fosse um troféu: ter a Glória Maria, uma negra famosa, conhecida, como se dissesse “a gente demonstra que não é racista, a Glória tá aqui”; mas vai a Glória Maria pisar na bola, e diriam: “Tá vendo? isso é coisa de crioulo”. Esta semana, saiu uma estatística apontando que 71% das vítimas de homicídios são negras. Levei um susto e pensei: até parece o movimento de extermínio de uma raça. 

8
 Normalmente, você não tem namorados negros. Por quê? 

Os homens negros preferem as brancas. O próprio negro se discrimina; para ele acreditar que venceu e tem status, precisa usar os valores brancos, como as suas mulheres, por exemplo. Quanto mais escura a sua pele, mais excluído você é. 

9
O que significa a cor da pele? 

Pra mim, a cor da pele nada significa porque eu costumo ver a alma – o que me interessa é o caráter e a capacidade de amar. No mundo em que vivemos, de competição e exclusão, esse tipo de sentimento não significa nada. 

10
 E sobre os casos recentes envolvendo o jornalista William Wack e a ministra Luislinda?

A frase não é do William – é do universo. Ter dito uma frase racista não significa que ele especificamente seja racista. Convivi a vida inteira com o William e nunca percebi nele uma demonstração de racismo. Waack  simplesmente teve uma reação inconsciente, que expressa o racismo. Chegou a esse ponto: uma reação inconsciente. Esse tipo de coisa é uma piada como fazem com português. Quanto à ministra Luislinda, ela fez o que todos eles fazem: acumular cargos. Ela não pode? Seria a única? É negra e teve a “ousadia” de conseguir ser ministra. Por que nunca se falou isso dos outros? É o que eu falei no início: “é coisa de preto”. O erro é sempre negro; o acerto é sempre branco. 


Enviado por: Lu Lacerda
20/10/2017 - 17:00

A novelista Gloria Perez tem a força

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No sentido horário: Alex Lerner; Antônia Müller; Patricia Viera; Tereza Xavier; Renata Reis; Glória Maria / Fotos: arquivo do Site Lu Lacerda

Você não cheira, você não joga, você não trafica, você não trai, você não mente (sim, a gente acredita; isso é coisa de ficção – sei!), mas a “Força do Querer” não te passou indiferente – em algum momento, deve ter mexido com seu estado de espírito. A novela é um sucesso absurdo; além das estatísticas em si, é assunto geral, em classes, níveis e perfis variados: seja pela crítica, seja pelo elogio, seja pelo palpite. A novela é considerada um fenômeno, a mais vista do horário nos últimos tempos e a melhor da autora – em números e crítica – desde “O Clone”, de 2001 e 2002. No PNT (Painel Nacional de Televisão), a média do folhetim, em setembro foi de 39 pontos, com 59% de share — mais ou menos seis em cada dez televisores ligados estavam transmitindo. Ali tem de tudo: traição, tráfico de drogas e transexualidade. Perez foi buscar inspiração no interior do Brasil, especificamente no Pará, e mostrou suas crenças e costumes misturados a temas atuais. Segundo consta, a autora dava dicas até para a mecânica corporal dos artistas. Mas vamos ser inteiramente justos? Ninguém sabe explicar o que faz uma novela dá certo. Convidamos seis cariocas loucos pelo assunto e praticamente de luto com o último capítulo da novela, nesta sexta-feira (20/10). Veja suas opiniões (nomes em ordem alfabética):

Alex Lerner (jornalista): “Lilia Cabral conseguiu mostrar o que é o vicio (em jogo), dosando emoção com humor. A novela explorou a personalidade de cada um, as pessoas gostavam antes de tudo, dos personagens. Assistiam pra ver a Bibi, a Joyce, a Ivana. Mas o mais importante de tudo foi a Gloria Perez resgatar a essência da novela, que andava em baixa e provar que novela boa explode, sim. O problema não é com o gênero em si, é um problema de qualidade. Ela passou a novela inteira escrevendo de pé (a autora só escreve assim), mas quem está de pé no ultimo capítulo somos nós, aplaudindo.

Antonia Müller (estudante de Direito): “Gosto muito da Ritinha, ela é muito safa. O casal Eugênio e Joyce está maravilhoso – ela é uma supermãe, mas a personagem mais bacana é a Geyza. Acho, sobretudo, que a Gloria Perez retrata assuntos tão humanos e atuais. Assisto sempre, não perco. Só marco programa para depois da novela. Estudante de Direito”.

Glória Maria (jornalista): “Sou viciada na novela pelo conjunto da obra – é verdade que tem muitas patricinhas loucas pra virar bandida. A trama da Irene, por exemplo, é tipo retratos da vida: a gente tem que ficar de olho aberto, tem sempre uma Irene pronta pra dar o bote. A força do querer prende pelo texto maravilhoso real e a gente precisa de um choque de realidade. Temos aí a Lava-Jato: é tão surreal que parece ficção, difícil de acreditar, e a novela, que é ficção, está mostrando a realidade o tempo todo. Quando perco, vejo até no Globo Play, e às vezes durmo de madrugada”.

Patricia Viera (estilista): “Adoro a Gloria Perez, ela tem a coragem que a maioria não tem, além de ser realista e atual. Ali vemos desde a perua alienada muito bem retratada pela Maria Fernanda Cândido. Trata ainda de um tema tão importante, que é a compulsão (Lilia Cabral), sei muitos que têm esse problema, e não assumem. Todos os assuntos estão ali, as pessoas comem demais, bebem demais, amam demais – é uma história com muito movimento. Mais importante é que a Gloria mostra que cada um pode ser quem quiser. O que importa é ser feliz”.

Renata Reis (assessora de imprensa): “Gloria tem uma veia de jornalista forte e ela traz às tramas coisas do nosso interesse, do nosso dia a dia. Maria Fernanda (Cândido) está espetacular e embeleza a novela; o Dan (Stulbach) é o maior ator da atualidade. Ali tem junto vício, transexualidade, tráfico de drogas e deu tudo certo. a Bibi, com aquele charme irresistível. (Ela chamou os atores pelo nome, mas a Juliana Paes, chamou de Bibi)”.

Tereza Xavier (joalheira): “A Gloria sempre alerta para questões importantes nas suas tramas, a realidade do universo do tráfico de drogas, a séria dependência do jogo, as questões de gênero, os psicopatas e traz ainda o reconhecimento e valorização do trabalho dos cães heróis. A novela é muito rica, músicas lindas, é séria, divertida e tem sido surpreendente. Parabéns, Gloria Perez”.


Enviado por: Redação