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A designer carioca Paula Acioli – formada pelo London College of Fashion, no Reino Unido, membro do Instituto Brasileiro de Negócios e Direito da Moda e autora de diversos livros sobre o assunto – vai fazer a palestra “Quando a história vira moda”, conteúdo da Casa do Saber, nesta quarta-feira (11), no Via Parque Shopping, às 19h30. Durante a conversa, Paula vai falar sobre o impacto do noivado Real entre o príncipe William e Kate Middleton e das Redes Sociais nas passarelas, vitrines, filmes e livros. A coluna bateu um papo com Paula:

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As redes sociais viraram uma grande vitrine. Existe regras nesse mundo da moda virtual? 

“Os protocolos no mundo virtual parecem estar virando o mundo (real) de cabeça para baixo, mas penso que a regra de ouro no mundo (real ou virtual) da moda é encantar e surpreender, mas sempre mantendo a verdade dos fatos (e das criações) e a ética. Em tempos de Internet e redes sociais, tudo acontece para o bem e para o mal. Estar sempre atento em fazer um bom trabalho, dar os créditos corretamente, ser autêntico, mas verdadeiro, criativo e ter conteúdo (mesmo que o conteúdo seja reduzido, por conta da velocidade das redes e da impaciência dos leitores das novas gerações) é, na minha opinião, essencial”.

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  Como ganhar seguidores nas redes sociais falando sobre moda? 

“O grande desafio é conseguir dar o seu recado de maneira criativa, clara e, se possível, inovadora – conquistar o coração e a mente daqueles com quem você quer falar, com conteúdo interessante e empatia (não importa se presencialmente, virtualmente ou numericamente). Costumo dizer que, em tempos de fugacidade de influência, devemos preferir ser referência. A influência pode passar, mas a referência permanece como um valor para a vida. Ganhar seguidores hoje é uma métrica de sucesso, mas não sabemos o dia de amanhã. Seria muito mais interessante e sólido que, ao invés de apenas seguidores, tivéssemos admiradores”.

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Hoje temos a discussão sobre o excesso de velocidade da moda.Você acha que o mecanismo da moda está rápido demais? Por quê? 

“Sim, os processos na moda estão mais acelerados porque vivemos tempos acelerados. No passado, tivemos a Alta-Costura, no século 19, e o Prêt-à-Porter, no século 20. Ambos eram considerados vanguardistas e velozes demais para o seu tempo. No século 21, falamos do nascimento do Fast Fashion e do See Now Buy Now, que possuem o temperamento desse século. Gosto de dizer que todos: Alta-Costura, Prêt-à-Porter, Fast Fashion e See Now Buy Now são filhos da moda, que nasceram em séculos e velocidades diferentes e possuem o contexto como pai”.

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  As redes sociais podem ser consideradas, na sua opinião, responsáveis por boa parte dessa rapidez da moda? 

” Com certeza. Mas não estão agindo de maneira dissociada do que acontece no contexto. São fatores que agem conjuntamente, tendo a tecnologia como uma espécie de centro nervoso. A tecnologia sempre nos alerta de que os tempos da moda, hoje, são outros, que é difícil ser outsider, viver “fora” da velocidade estabelecida pelas redes sociais. Prova disso são o Fast Fashion – estratégia agressiva de varejo, superdemonizada e pouco entendida, que chamo de “o filho rebelde da moda”; o See Now Buy Now (irmão do Fast Fashion) e o Slow Consumerism, o filho caçula da moda do século 21, de temperamento mais tranquilo que nasceu para neutralizar a agitação de seus irmãos mais velhos e trazer mais reflexão à moda nestes tempos acelerados”.

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Raf Simons deixou a direção criativa da Dior por excesso de tarefas, por querer algo mais “calmo”. Outros grandes estilistas, como Alber Elbaz, que logo depois saiu da Lanvin, também reclamam do excesso de trabalho. O que você acha das decisões e declarações deles? 

“O sistema da moda, como era de esperar, está mudando. E as mudanças fazem parte dos ciclos da moda, que se constroem, se estabelecem, se esgotam e se renovam, em ritmo constante, sem pausas. Quando a Alta-Costura surgiu, no século 19, reis, rainhas e nobres sentiram que não seriam mais os únicos a se vestirem com o luxo, antes exclusivo de sua classe, e resistiram às mudanças, maldizendo a burguesia rica que surgia com a Revolução Industrial, capaz de comprar roupas luxuosas. Quando o Prêt-à-Porter surgiu, revoltou os criadores da Alta-Costura, muitos dos quais decidiram, inclusive, fechar suas maisons em protesto ao novo processo da moda que entrava. Hoje, várias grifes de Alta-Costura foram compradas por grupos de luxo, que mantêm, também sob sua gestão, grifes de Prêt-à-Porter e exigem resultados, que antes não eram exigidos dos criadores. Quando o Fast Fashion apareceu, novamente houve reação e resistência. E hoje, para a surpresa dos mais conservadores, vemos Karl Lagerfeld, o diretor criativo da Chanel (e de tantas outras grifes de luxo) e ícone da moda mundial, criando e assinando coleções para redes de marcas que adotam a estratégia Fast Fashion. Mudou a moda, mudaram as relações entre moda e criadores, mudou o mercado. Os criadores hoje – com raras exceções – não possuem mais a autonomia e tempo de criação que possuíam antes, e estão com muito mais atribuições e tarefas; daí essa verdadeira “dança das cadeiras” a que assistimos atualmente nos cargos de diretores criativos das grandes grifes de moda. Esse é um processo que, na minha visão, faz parte das transformações”.

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Enviado por: Redação

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